O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano na penúltima reunião de 2026. Anunciada na noite de quarta-feira (4/11), a decisão interrompe a sequência de reduções observada anteriormente, em um cenário marcado pela elevação da expectativa de inflação e por pressões cambiais e fiscais.
Em ata divulgada após o encontro, a autarquia informou que a medida levou em consideração as incertezas do ambiente externo. Segundo o texto, o cenário internacional tornou-se mais adverso devido ao prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio, que geram impactos altistas sobre o preço do petróleo e derivados, além da política monetária mais restritiva em economias avançadas. A instituição pontuou que tal conjuntura exige cautela por parte de países emergentes, em um momento de maior volatilidade nos preços de ativos e commodities.
O comunicado destacou ainda que a manutenção da taxa é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante, buscando também suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego, sem abrir mão da estabilidade de preços.
No Boletim Focus divulgado na terça-feira (3/11), a projeção de inflação para 2027 subiu de 4,34% para 4,76%, enquanto a estimativa para a Selic ao fim daquele ano avançou de 11,75% para 12,50%. A última reunião do Copom em 2026 está agendada para os dias 8 e 9 de dezembro.
Visão de especialistas sobre a política monetária
Para Renan Pieri, economista e professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP/FGV), a mudança na trajetória dos juros reflete a revisão do risco fiscal e a queda na confiança do mercado quanto ao controle inflacionário. Segundo ele, o resultado eleitoral surpreendeu e elevou as expectativas de uma política fiscal expansionista, o que faz com que investidores exijam juros maiores diante do aumento na incerteza sobre a dívida pública.
Já Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), avalia que a manutenção da taxa funciona como um período de observação para a autoridade monetária avaliar os reflexos das expectativas e da desvalorização cambial. O docente ressalta que a política monetária não deve ser analisada de forma isolada, uma vez que a sustentabilidade fiscal é determinante para aliviar o esforço dos juros no controle dos preços.
Impactos para as pequenas e médias empresas (PMEs)
A estabilização da Selic em 13,75% repercute diretamente sobre os custos operacionais das PMEs. Alex Nery, professor da FIA Business School, aponta que o patamar atual serve apenas como piso para o custo do crédito, sendo que as empresas de menor porte arcam com taxas ainda mais elevadas em modalidades de curto prazo, a exemplo do cheque especial empresarial e da antecipação de recebíveis de cartão de crédito.
Os reflexos atingem diferentes fases da gestão corporativa:
- Capital de giro: Aumento da necessidade de financiamento decorrente de prazos mais longos de pagamento por parte dos clientes e giro mais lento dos estoques.
- Compressão de margens: Elevação do custo financeiro que reduz a lucratividade do negócio.
- Adiamento de investimentos: Retração na capacidade de expansão e modernização das empresas diante do encarecimento dos recursos.
Recomendações de planejamento para 2027
Diante do cenário de juros elevados por um período prolongado, especialistas orientam os empresários a intensificarem o planejamento financeiro para o próximo ano:
- Preservar a liquidez: Manter reservas de caixa adequadas para cumprir obrigações com fornecedores, folha salarial e tributos, mesmo em fases de faturamento reduzido.
- Reperfilar dívidas: Alinhar os prazos de amortização ao ciclo financeiro real da operação.
- Revisar a estrutura de financiamento: Abster-se de utilizar linhas de crédito de curto prazo para suprir exigências estruturais e permanentes de caixa.
Fonte original: Globo