A disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) coloca o mercado financeiro diante de um período de incertezas, no qual expectativas sobre a condução da economia podem provocar oscilações significativas nos preços dos ativos. Após o primeiro turno, em que os candidatos obtiveram 47,03% e 45,16% dos votos válidos, respectivamente, o mercado registrou uma reação expressiva, com valorização do Ibovespa, queda do dólar e recuo das taxas de juros futuros. Para a WP Manager, plataforma de gestão para escritórios de assessoria de investimentos, movimentos dessa magnitude não devem ser interpretados como garantia de tendência, mas como uma reprecificação inicial das expectativas dos investidores.
Com a aproximação do segundo turno, pesquisas eleitorais, debates e articulações políticas continuam influenciando as decisões de investimento. O assessor de investimentos assume um papel central na orientação dos clientes, ajudando a interpretar os acontecimentos econômicos sem permitir que a euforia ou o receio provoquem mudanças precipitadas nas carteiras. A função do profissional é conectar as informações do mercado aos objetivos financeiros de cada investidor, preservando o planejamento de longo prazo.
“O investidor precisa entender que o mercado reage às expectativas sobre o futuro, e não apenas aos fatos que já aconteceram. Uma alta expressiva da Bolsa em um único pregão não significa que os riscos desapareceram, assim como uma queda não representa necessariamente uma oportunidade imediata de compra. O papel do assessor é contextualizar esses movimentos, apresentar cenários e ajudar o cliente a tomar decisões coerentes com seus objetivos e sua capacidade de assumir riscos”, afirma Guilherme Utpadel, CEO da WP Manager.
Neutralidade Política e Análise de Cenários
Um dos principais pontos de atenção durante o período eleitoral é a necessidade de separar a análise econômica das preferências políticas. A recomendação é que o assessor mantenha uma postura técnica e isenta, apresentando os possíveis efeitos econômicos de cada resultado eleitoral sem transformar a orientação financeira em manifestação partidária.
Entre os fatores que influenciam os ativos estão as expectativas para a política fiscal, a trajetória da dívida pública, os juros, o câmbio e a capacidade do próximo governo de negociar medidas com o Congresso Nacional. Dependendo da percepção dos investidores sobre essas variáveis, diferentes setores e classes de ativos podem apresentar desempenhos distintos.
Em um cenário de redução da percepção de risco fiscal e queda das taxas de juros, empresas mais sensíveis ao crédito e à atividade econômica doméstica — como varejo, construção civil e shopping centers — podem ser beneficiadas. Títulos prefixados e papéis de renda fixa de prazos mais longos também podem apresentar valorização, condicionados à trajetória efetiva dos juros e às expectativas já precificadas.
Por outro lado, caso as incertezas fiscais permaneçam elevadas, a volatilidade tende a continuar presente, favorecendo a busca por empresas com receitas em moeda estrangeira, operações resilientes ou maior capacidade de atravessar ciclos econômicos adversos. Investimentos pós-fixados atrelados ao CDI também mantêm atratividade enquanto os juros estiverem elevados.
“Não existe uma carteira que possa ser montada apenas com base na preferência por um candidato ou na expectativa de uma única decisão política. Precisamos avaliar quais premissas econômicas estão por trás de cada cenário, quanto desse cenário já está precificado e quais são os riscos caso as expectativas não se confirmem. Essa análise precisa ser individualizada e considerar o conjunto do patrimônio do cliente”, explica Utpadel.
Perfil do Investidor e Gestão de Riscos
Outro cuidado fundamental é evitar que movimentos positivos de curto prazo levem a um aumento precipitado da exposição a ativos de maior risco. A valorização expressiva da Bolsa pode estimular a busca por ganhos adicionais, mas decisões tomadas sem avaliar a tolerância a perdas e o horizonte de investimento comprometem os objetivos financeiros.
A WP Manager ressalta a importância de revisar o perfil do investidor (procedimento de suitability) antes de recomendar alterações relevantes na carteira. O processo analisa objetivos, prazo para utilização dos recursos, situação financeira e capacidade de suportar oscilações.
“Nosso trabalho não é estimular o cliente a correr atrás do ativo que mais subiu, mas entender se qualquer mudança faz sentido para a sua realidade. Uma carteira precisa ser construída para atender às necessidades do investidor, e não para reagir a cada manchete ou pregão. Em períodos eleitorais, essa disciplina se torna ainda mais importante”, afirma o CEO.
Diversificação como Proteção
A dificuldade de prever desdobramentos políticos e econômicos reforça a necessidade de diversificação. Em vez de concentrar recursos em uma única tese eleitoral, a orientação consiste em estruturar a carteira combinando ativos com características e fatores de risco distintos.
- Renda fixa pós-fixada;
- Títulos indexados à inflação;
- Ações de empresas voltadas ao mercado interno;
- Companhias exportadoras;
- Exposição internacional, incluindo ativos ligados a moedas fortes.
O acompanhamento periódico e o rebalanceamento ajudam a recuperar as proporções planejadas inicialmente caso as oscilações alterem a composição da carteira, sempre considerando custos e tributação. Para a empresa, a diversificação não elimina riscos nem garante rentabilidade, mas reduz a dependência de um único evento.
Além da análise técnica, a comunicação proativa e transparente por parte do assessor é essencial para mitigar a insegurança em períodos de volatilidade, documentando recomendações e mantendo o investidor informado sobre os fatores que movimentam o mercado.
Fonte original: Globo