As chuvas que provocam alagamentos nas cidades brasileiras encontram, em diversos locais, obstáculos gerados muito antes dos temporais: restos de obras, tijolos, plásticos, móveis e terra descartados de forma irregular em vias públicas, margens de córregos e áreas de drenagem. Esses materiais têm o potencial de bloquear a passagem da água e intensificar os impactos das precipitações. Apesar desse risco, apenas 11 das 24 unidades da Federação participantes da Pesquisa Setorial Abrecon 2026 — o equivalente a cerca de 46% — declararam realizar ações de monitoramento ou mapeamento de áreas clandestinas de descarte de resíduos.
O alerta ganha relevância diante da previsão de chuvas intensas. Dados da Defesa Civil indicam que regiões urbanas podem registrar volumes expressivos de precipitação em curto período, reforçando a importância da manutenção dos sistemas de drenagem e da destinação adequada de resíduos, especialmente em áreas vulneráveis a inundações.
Falta de transparência e relatórios periódicos
O levantamento da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção e Demolição (Abrecon) aponta que as lacunas no acompanhamento vão além da simples identificação dos pontos de descarte. Entre as 11 unidades da Federação que afirmaram monitorar ou mapear essas regiões, apenas Paraíba, Rio de Janeiro e Sergipe informaram divulgar relatórios periódicos sobre o monitoramento, a limpeza ou a fiscalização desses locais. Os resultados têm abrangência nacional, o que significa que a situação pode variar consideravelmente entre os municípios.
"Quando restos de uma obra são deixados na rua ou na margem de um córrego, eles não desaparecem com a chuva. Parte desse material pode ser arrastada e se acumular justamente onde a água precisa passar. Em locais que já apresentam dificuldades de drenagem, o descarte irregular acrescenta um problema que poderia ser evitado", destaca Levi Torres, coordenador da Abrecon.
Impactos na infraestrutura urbana
Na prática, o entulho interfere no escoamento das águas de diferentes maneiras. Materiais depositados próximos a bueiros podem bloquear a entrada da água, enquanto resíduos acumulados em galerias e cursos d'água reduzem o espaço disponível para o fluxo. A dimensão do dano depende de fatores como a quantidade e o tipo de material, o local de descarte e as condições da infraestrutura existente.
Essa preocupação também se reflete nas respostas de órgãos de controle consultados pela pesquisa. Problemas de drenagem e infraestrutura urbana, contaminação do solo e proliferação de vetores foram apontados como os três principais efeitos negativos decorrentes do descarte inadequado, cada um citado por 40% dos respondentes entre Ministérios Públicos e Tribunais de Contas.
Especialistas ressaltam que as inundações possuem causas múltiplas, incluindo a intensidade das chuvas, a impermeabilização do solo, a ocupação de áreas inundáveis e as condições gerais dos sistemas de drenagem. A presença de resíduos atua como um agravante, exigindo avaliações locais específicas.
Prevenção e destinação correta
Mesmo após o término das chuvas, os resíduos frequentemente permanecem acumulados nas ruas e estruturas de drenagem. Sem a remoção adequada e o controle de novos despejos, o problema tende a se repetir nas precipitações seguintes.
A prevenção começa no planejamento de pequenas reformas e construções. Os resíduos gerados por obras e demolições exigem destinação adequada e podem, em muitos casos, ser processados em usinas para a fabricação de agregados reciclados destinados à própria construção civil, respeitando as normas técnicas.
Cidadãos e responsáveis por obras devem consultar as regras municipais de recebimento de materiais, contratar transportadores regularizados e exigir comprovação da destinação final dos detritos. "O cuidado não termina quando a caçamba sai da obra. É preciso saber para onde o material foi levado. A destinação correta, associada à fiscalização e à oferta de locais adequados de recebimento, ajuda a impedir que o entulho termine nas ruas e nos cursos d'água", conclui Torres.
Fonte original: Globo