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Quarta-feira, 21 de outubro de 2026
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Megafusão entre Afya e Yduqs cria gigante da medicina, mas pode exigir venda de ativos

A união das companhias dá origem ao maior grupo de ensino médico do país, concentrando 17% das vagas privadas, e agora passa pelo crivo do Cade com foco em mercados locais.

Por Redação
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Megafusão entre Afya e Yduqs cria gigante da medicina, mas pode exigir venda de ativos

A anunciada fusão entre as redes Afya e Yduqs, formalizada em 23 de setembro de 2026, consolida a criação do maior grupo de ensino médico do Brasil. A operação, que agora aguarda a rigorosa análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), reúne um ecossistema robusto com cerca de 38 mil estudantes de medicina e 5.888 vagas anuais autorizadas, sendo 3.768 provenientes da Afya e 2.120 da Yduqs. Esse volume expressivo representa aproximadamente 17% de todas as vagas privadas de medicina disponíveis no país, conforme dados do InvestNews.

Embora a participação nacional não configure, isoladamente, uma concentração considerada alarmante — com estimativas do JPMorgan apontando 11% para a Afya e 6% para a Yduqs —, a atenção da autoridade antitruste deve se voltar de maneira minuciosa para os mercados regionais onde ambas as marcas mantêm operações simultâneas. Os dados revelam sobreposições expressivas em praças específicas: em Ji-Paraná (RO), o grupo resultante deterá a totalidade das vagas privadas (100%); em Teresina (PI), a fatia alcançará 53%; e no Rio de Janeiro (RJ), o índice será de 48%. Especialistas financeiros destacam que esses percentuais superam amplamente o patamar de 20%, limite que o Cade costuma utilizar como parâmetro para avaliar impactos de sobreposições horizontais.

Impacto local e histórico regulatório

Segundo Joel Freire, diretor-executivo da InMEC, consultoria especializada em fusões e aquisições no setor educacional, cenários de sobreposição relevante em mercados locais frequentemente resultam em exigências de desinvestimento. "Quando há sobreposição relevante em mercados locais, o Cade pode condicionar a aprovação à venda de unidades. No caso da medicina, isso significa colocar à venda um tipo de ativo que raramente chega ao mercado", pontua o executivo.

Relatórios de instituições financeiras veiculados pela Bloomberg Línea apontam que essas três praças respondem por cerca de 15% do total de vagas combinadas da nova gigante, o que significa que eventuais exigências de desinvestimento teriam impacto limitado sobre a estrutura geral da corporação. O órgão antitruste dispõe de um prazo de até 330 dias para proferir sua decisão definitiva. O mercado educacional brasileiro já possui precedentes rigorosos de escrutínio desse tipo: em 2017, o Cade reprovou a tentativa de fusão entre a Kroton (atual Cogna) e a Estácio (integrante da Yduqs), ao identificar insuficiência concorrencial no ensino presencial em oito municípios.

Cenário de escassez de novos cursos e valorização de ativos

Uma eventual determinação de venda de faculdades ocorreria em um contexto de restrição severa para a abertura de novas graduações na área. Por meio da Portaria MEC nº 129, publicada em 9 de fevereiro de 2026, o Ministério da Educação (MEC) revogou o edital que previa a criação de até 95 novos cursos de medicina em instituições privadas. Na justificativa da medida, a pasta ministerial argumentou que, entre 2024 e o início de 2026, decisões judiciais e processos administrativos viabilizaram a criação de 5.382 novas vagas, patamar muito próximo ao inicialmente projetado pelo próprio planejamento governamental.

"Com a revogação do edital, a aquisição de cursos em funcionamento passou a ser uma das principais formas de um grupo crescer em medicina. Isso aumenta a disputa por cada vaga autorizada", contextualiza Joel Freire.

A valorização acentuada desses ativos é respaldada por transações recentes de grande porte no setor. Em 2024, a Afya concluiu a aquisição do grupo Unidom, localizado em Salvador, que contava com 300 vagas de medicina em uma operação avaliada em cerca de R$ 660 milhões — com parcelas do montante atreladas à regularização documental junto ao MEC. Já em julho de 2026, a Clariens Educação, braço de investimentos da Mubadala Capital de Abu Dhabi, concretizou a compra da Universidade Vila Velha (UVV), no Espírito Santo, instituição que também oferece graduação médica, marcando a sexta aquisição do fundo na área desde 2021. Paralelamente, no início de outubro, o mercado financeiro repercutiu o movimento do fundo soberano de Cingapura, GIC, que avalia reduzir ou alienar sua participação de aproximadamente 37% no grupo Cruzeiro do Sul, avaliado em R$ 2,2 bilhões.

Qualidade acadêmica e critérios de avaliação

Além do volume de vagas e da localização geográfica, a qualidade do ensino prestado tornou-se um fator determinante na valoração e nas negociações desses ativos educacionais. Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados pelo MEC em 19 de janeiro de 2026, revelaram que 99 dos 304 cursos avaliados no sistema federal de ensino obtiveram conceitos 1 e 2, patamares em que menos de 60% dos estudantes concluintes atingiram a proficiência mínima esperada.

Tais graduações com desempenho insatisfatório foram imediatamente submetidas a rigorosos processos de supervisão regulatória, cujas penalidades variam desde a redução drástica de vagas até a suspensão da participação no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e a proibição de novos processos seletivos de ingresso.

"O comprador vai olhar além do número de vagas autorizadas. O resultado no Enamed, a situação regulatória do curso e a estrutura de campos de prática passaram a pesar diretamente no valor da transação", complementa o diretor-executivo da InMEC.

Para a concretização definitiva da fusão, além do aguardado aval formal do Cade, a operação ainda necessita da aprovação soberana dos acionistas de ambas as empresas envolvidas, além do cumprimento de uma série de salvaguardas contratuais, com prazo-limite estipulado para 31 de março de 2028. Até lá, a equação envolvendo alta concentração regional, interrupção na abertura de novos editais governamentais e exigências regulatórias mais rígidas continuará ditando o ritmo e o interesse de investidores e concorrentes pelos valiosos cursos de medicina já estabelecidos no país.


Fonte original: Globo

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