O Ibovespa registrou sua pior semana desde março de 2020, acumulando uma queda de 18,12% após fechar em baixa pelo quinto pregão consecutivo nesta sexta-feira (30). O índice encerrou o dia com recuo de 0,75%, aos 167.922 pontos, atingindo o menor patamar em cerca de dois meses e meio.
Em sentido oposto, o dólar comercial avançou mais de 1% na sessão, cotado a R$ 5,44 — maior patamar desde dezembro do ano anterior —, encerrando a semana com expressiva alta acumulada de 9%.
Reação e impacto nos ativos
A maior parte do ajuste ocorreu na segunda-feira, quando a Bolsa despencou 14% e acionou o mecanismo de circuit breaker — paralisação temporária das negociações — logo na abertura. O movimento refletiu a reação do mercado à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no domingo. A reversão de expectativas gerou fortes reajustes nos ativos diante de temores sobre riscos fiscais e a perspectiva de juros elevados por um período mais prolongado.
No acumulado de outubro, o Ibovespa recuou 9,88%, configurando a maior baixa mensal desde junho de 2022. O índice, que havia saído dos 186.340 pontos no fim de setembro e superado os 209 mil pontos na expectativa de alternância de poder e ajuste fiscal, retornou à faixa dos 167 mil. No ano, contudo, o indicador ainda acumula alta de 4,22%.
O dólar registrou salto superior a 8% na segunda-feira, ultrapassando R$ 5,60 na máxima do dia. No mês de outubro, a moeda acumula valorização de 5,2%, enquanto no acumulado do ano opera próximo à estabilidade.
Disparidade nos juros futuros
Os contratos de juros futuros também dispararam ao longo da semana. O DI com vencimento em janeiro de 2028 fechou a 14,48% ao ano, registrando alta de 159 pontos-base na semana. Nos vencimentos mais longos, os aumentos foram ainda mais expressivos: 249 pontos-base nos contratos para janeiro de 2030 e janeiro de 2035, que encerraram cotados a 15,14% e 15,25%, respectivamente.
Projeções e cenários futuros
Para os próximos meses, as projeções para o Ibovespa divergem entre as instituições financeiras, mas convergem em relação à pressão no curto prazo. Relatórios divulgados na semana apontam diferentes perspectivas:
- JPMorgan: previa recuo de aproximadamente 20%, para a faixa de 170 mil pontos, patamar que o índice já ultrapassou.
- BTG Pactual: avalia que, sem novidades, há espaço para um ajuste adicional de 10% em dólares (já considerando o câmbio) ou para uma fase de estabilização lateral até que o governo detalhe suas diretrizes fiscais.
- Morgan Stanley: adota a projeção mais cautelosa, estimando o índice em 130 mil pontos até meados de 2027, o que representaria uma queda adicional de cerca de 23% em relação ao fechamento desta sexta-feira.
- Goldman Sachs: aponta que o foco estará nos sinais emitidos nas semanas seguintes, como a definição do titular do Ministério da Fazenda e o ajuste do Orçamento.
Como fator positivo, analistas destacam o nível atrativo dos preços. O índice negocia entre 7,7 e 7,9 vezes o lucro projetado, patamar inferior à média histórica de 10 vezes registrada na última década. O Itaú BBA projeta um retorno total de 25% ao ano em um horizonte de três anos, caso o ambiente macroeconômico venha a se estabilizar.
No mercado de câmbio, instituições financeiras estimam que o dólar permaneça acima de R$ 5,30 nos próximos meses, com bancos americanos projetando cotações entre R$ 5,50 e R$ 5,60 no curto prazo. O Morgan Stanley aponta a possibilidade de a moeda alcançar R$ 5,60 ou até mesmo R$ 6 caso o mercado identifique riscos de dominância fiscal — cenário em que a política monetária perde eficácia devido ao endividamento público excessivo. Em contrapartida, um cenário benigno, com uma equipe econômica bem recebida e medidas concretas de contenção de gastos, poderia puxar a cotação para abaixo de R$ 5,30.
A próxima semana reserva novos testes para os mercados, com a realização das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos na terça-feira (3) e a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa Selic na quarta-feira (4). Até lá, a principal expectativa dos investidores concentra-se na definição da equipe econômica e nos direcionamentos do governo em relação ao controle das contas públicas.
Fonte original: InvestNews