Quando milhares de pessoas se deslocam para assistir a um show, participar de uma feira ou acompanhar uma competição esportiva, o impacto econômico vai muito além dos portões da programação. Hotéis, restaurantes, serviços de transporte, fornecedores e comércios do entorno passam a atender a uma demanda concentrada e disposta a consumir. Para micro e pequenas empresas (MPEs), o desafio central é transformar esse movimento temporário em faturamento sólido e em um relacionamento duradouro com novos clientes.
O tamanho desse potencial é respaldado por indicadores expressivos. Em 2024, cerca de 300 mil empresas do setor de eventos participaram de mais de 10 milhões de realizações em todo o país. Juntas, essas atividades geraram 12,7 milhões de empregos, recolheram R$ 133,9 bilhões em impostos e movimentaram R$ 813,5 bilhões, sendo que as MPEs responderam por 75% desses recursos. A projeção oficial aponta que a receita total do setor ultrapasse R$ 1,5 trilhão em 2035, conforme o estudo III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025, realizado pelo Observatório da Indústria do Ceará em parceria com a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC Brasil) e o Sebrae.
Empreendimentos de todos os portes encontram espaço nessa cadeia. Segundo Rodrigo Soares, presidente do Sebrae, é comum que a organização de um grande evento contrate uma empresa de maior porte, que por sua vez subcontrata uma ampla rede de pequenos fornecedores especializados. O mercado demanda soluções em áreas como alimentação, comunicação, hospedagem, montagem, segurança, tecnologia, transporte e turismo.
Principais Setores Impactados por Grandes Eventos
- Organizadores: Responsáveis por planejamento, coordenação, produção, gestão e execução de congressos, feiras, competições esportivas, festivais musicais, festas regionais e experiências híbridas.
- Fornecedores Oficiais: Oferecem insumos, equipamentos, tecnologia e serviços especializados, incluindo montagem de estandes, cenografia, palcos, som, iluminação, painéis de LED, internet dedicada e segurança.
- Expositores: Alugam espaços para apresentar produtos e serviços, testar ideias e divulgar marcas, abrangendo empresas de vários portes, empreendimentos criativos, instituições públicas e universidades.
- Negócios do Entorno: Estabelecimentos que se beneficiam do fluxo de pessoas, como hotéis, pousadas, bares, restaurantes, cafeterias, shopping centers, comércio de rua e serviços de transporte.
- Turismo Receptivo: Agências de viagens, guias turísticos, city tours, passeios históricos, museus e centros culturais que oferecem experiências ligadas ao destino.
- Delivery e Conveniência: Mercados, farmácias, serviços de motofrete e startups de logística que atendem à alta procura por refeições e itens de uso cotidiano.
Desafios e Armadilhas para Evitar
Apesar das oportunidades, a falta de preparo pode comprometer o caixa e a reputação do empreendimento. Entre os principais riscos apontados por especialistas estão:
- Falta de planejamento prévio e precificação inadequada;
- Custos fixos elevados e equipe despreparada;
- Erros de logística, falhas de internet e instabilidade nas maquininhas de cartão;
- Furtos de mercadorias e equipamentos;
- Concorrência intensa, fatores climáticos adversos e cancelamento de programaciones.
Para o professor Marcelo Flores, da ESPM, o planejamento deve obrigatoriamente responder se o produto faz sentido para o público do evento. Já Vanda Mazza, do Senac Aclimação, reforça a necessidade de estudar edições anteriores para mapear acessos, tempos de reposição e rotas logísticas.
Aproveitando Nichos Específicos: Festivais, Esportes, Religião e Cultura
Diferentes tipologias de eventos exigem estratégias direcionadas. Em festivais de música como o Rock in Rio, Lollapalooza, The Town, João Rock, Afropunk Brasil e Psica, o foco está na experiência e na agilidade de atendimento durante os curtos intervalos entre as apresentações. Empreendimentos como o restaurante As Negonas, em Belém (PA), ilustram o potencial: operando com pratos preparados previamente e aquecidos na hora, o negócio consegue faturar dezenas de milhares de reais em um único dia de festival.
Em competições esportivas, como maratonas e provas de ciclismo, o público divide-se entre atletas que buscam hidratação e itens de recuperação muscular, e espectadores focados em entretenimento e artigos licenciados. A marca Wondr, por exemplo, utiliza pontos de degustação e hidratação em corridas de rua para apresentar refrigerantes prebióticos e estreitar o relacionamento com os consumidores.
Nas grandes celebrações religiosas, como o Círio de Nazaré em Belém (PA), Aparecida (SP) e Juazeiro do Norte (CE), a motivação principal é a fé. O sucesso de artesãos e pequenos negócios depende de um atendimento pautado pelo respeito à tradição e pela comercialização de itens com forte apelo simbólico e cultural, a exemplo do coletivo Flores Mãe Santíssima e da loja Q’Boi, em Parintins (AM), que equilibra produtos oficiais dos bois Caprichoso e Garantido.
Feiras literárias e convenções de cultura pop — como a CCXP — também movimentam mercados específicos. A Editora Malê, especializada em autores negros, utiliza eventos como a Bienal do Livro e a Flip para gerar vendas diretas e fortalecer parcerias estratégicas, mantendo o vínculo com os leitores por meio de cadastros e ações de pós-venda.
O Pós-Venda e a Fidelização do Cliente
Especialistas concordam que o encerramento da programação não deve significar o fim da relação com o consumidor. Utilizando cadastros, QR Codes, programas de benefícios e experiências interativas autorizadas, o empreendedor pode captar dados valiosos. O período de até 60 dias após o evento é considerado o mais propício para reatar o contato, enviar ofertas segmentadas e transformar um visitante ocasional em um cliente fiel.
Fonte original: Globo