O setor de alimentação no Brasil vive um momento de intensa reconfiguração. O que antes era um mercado rigidamente organizado por categorias e localizações fixas agora se molda com base em ocasiões de consumo. Com opções que vão desde compras em supermercados e aplicativos de delivery até rotisserias e refeições preparadas em casa, as fronteiras tradicionais tornaram-se fluidas. Segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o mercado movimentou R$ 495 bilhões em 2025, superando os R$ 455 bilhões do ano anterior, com uma estimativa de alcançar R$ 540 bilhões.
Apesar do crescimento no faturamento, os desafios operacionais aumentam. Custos de insumos, mão de obra, energia e aluguel pressionam os empresários, que disputam a atenção de consumidores cercados por ofertas diversificadas. Contudo, os canais de atendimento se somam em vez de se substituírem. Dados da consultoria Galunion apontam que apenas 11% dos entrevistados afirmam comer raramente ou nunca de forma presencial no food service, enquanto sete em cada dez utilizam o delivery ou serviços de retirada ao menos duas ou três vezes por mês. A decisão de compra do cliente contemporâneo já não se apoia exclusivamente no preço, englobando também sabor, qualidade, praticidade e experiência.
Entre as forças que redesenham o panorama gastronômico, destacam-se os medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras. O uso desses fármacos reduziu o apetite de parcela significativa dos frequentadores de restaurantes, provocando mudanças na composição dos pedidos. Estabelecimentos já relatam o aumento na divisão de pratos, pedidos de porções menores e substituição de itens ricos em carboidratos por opções proteicas. Essa tendência exige que cozinhas e gestores revisem margens, tamanhos de porções e estratégias de cardápio para atender a um público cada vez mais atento à saúde e aos ingredientes.
A tecnologia também assume um papel central na gestão e na eficiência dos negócios alimentícios. Ferramentas de Inteligência Artificial e sistemas integrados auxiliam na previsão de demanda, controle de estoque, prevenção de fraudes e precificação automatizada — a exemplo de redes de mercados autônomos que elevaram suas margens por meio de algoritmos preditivos. Paralelamente, o salão dos restaurantes se reinventa como um espaço focado na hospitalidade, na socialização e em experiências imersivas que diferenciam o atendimento presencial das facilidades do consumo digital e do delivery.
Fonte original: Globo